Eu
não peço desculpa
2002
- Por Caetano Veloso
As
risadas e os sustos que as conversas com Mautner sempre provocam,
excitaram minha imaginação de modo especial
nos encontros que tivemos, entre outubro e dezembro de 2001,
o que me levou a desejar fazer um disco em colaboração
com ele. A amizade que mantemos desde que nos vimos pela primeira
vez, em Londres, no começo da década de 1970,
é e foi sempre muito importante para mim. Mas nunca
tive tão clara em minha mente a pergunta sobre minha
verdadeira ambição quanto durante esses papos
mais recentes: certamente o que ambiciono não é
a fama e menos ainda a riqueza "material"; será
a poesia?, a política? ou... a profecia?
Foi essa hipótese da ambição profética
que me levou a propor a Mautner o disco conjunto. Porque Jorge
é uma improvável mistura de paganista com profeta
de Israel. Daí é que vem o fascínio que
sua curiosa personalidade paraliterária, paramusical,
e parapolítica (sua instigante personalidade tout court)
exerce sobre mim.Sem dúvida, é dessa combinação
que vieram suas inclinações de adolescência
para liderar movimentos com características quase fascistas,
o que, paradoxalmente(?), o levou aos altos círculos
do Partido Comunista e, sobretudo, à produção
de um romance assombrosamente forte chamado "Deus da
Chuva e da Morte". A experiência, na extrema juventude,
de debruçar a imaginação mítica
sobre informações secretas da política
pesada deu-lhe uma visão única (e mais contraditória
na aparência do que na realidade) de como se joga com
o poder no mundo. Uma visão que ele não cansa
de reconstruir, me virar, atualizar.
Os terríveis acontecimentos de 11 de setembro de 2001,
envolvendo Nova Iorque, cidade amada por ele e por mim, e
repercutindo na situação de Israel, país
que adoramos, e no vasto Islã, que nos fascina e nos
remete à pergunta pelo destino da idéia central
do povo Judeu, o Monoteísmo, nos levaram a conversas
sobre o mundo, o Brasil, a vida dos homens. Nessas conversas,
às vezes eu sentia medo. Pois bem: foi para espantar
o medo que decidi pedir a Jorge que deixássemos tudo
desaguar em canções. Depois de vê-lo,
no carnaval de 2002, em Salvador, cantar o "Hino do Carnaval
Brasileiro", num trio elétrico, em meio a um verão
singularmente amargo para mim, entendi que o disco teria que
ser feito logo que eu voltasse para o Rio. As canções
que fizemos não lembram ou ilustram essas conversas
de que falei. São, em geral, canções
pop-paródicas: elas exibem o distanciamento que Mautner
mantém em sua permanente metamorfose apaixonada. Fazem
rir e podem fazer chorar.
Algumas eu fiz sozinho, mas não as teria feito se não
fosse para um disco com Jorge Mautner. Tudo no disco tem a
ver com o clima dele ou com o clima a que ele me transporta.
Hipertropicalista, porque tropicalista avant la lettre, Mautner
não pode conceber o que venha a ser uma necessidade
de criar-se o antitropicalismo (uma necessidade genuína
que muita gente mais jovem confessa sentir o que não
deve ser confundido com as, talvez, mais freqüentes manifestações
de mesquinhos desejos de substituição de celebridades):
ele reanima as motivações elementares daquele
movimento, que são, afinal, as mesmas que movem seus
principais líderes: eis por que Gil foi chamado para
cantar conosco o meu "Feitiço" (uma resposta
ao "Feitiço da Vila" de Noel) e para pôr
música nos versos de "Coisa Assassina", de
Mautner. É não apenas o Gil tropicalista que
está ali: é o Gil que excursionou com Mautner
nos anos 1980 com o show "O Poeta e o Esfomeado".
Mas Mautner é hipertropicalista também porque
ele não foi, à época do movimento, um
tropicalista: estes eram bossanovistas que se subvertiam;
Mautner era, tal como Raul Seixas, um amante do rock'n'roll
e das baladas country norte-americanas (além dos samba-canções
de Adelino Moreira) que exibia (até no texto de seus
primeiros livros) desprezo pela bossa nova. De fato, ao gravar
com ele "Todo Errado" (de onde, afinal, saiu o título
do disco), pensei muito em Raul e nas coisas da letra de "Rock'n'Raul".
Assim, Eu Não Peço Desculpa é também
uma continuação de "Rock'n'Raul",
essa canção que me parece tão grandiosa
quão mal compreendida. Gravei "Lágrimas
Negras" e o "Maracatu Atômico" porque
acho esta uma obra-prima obrigatória e aquela uma das
mais belas canções sobre a tristeza já
feitas. E porque queria pontuar o disco com lembretes do peso
da obra de Jorge. Pedi a ele que escolhesse algo meu para
regravar: ele chegou ao estúdio com essa "Cajuína"
que ele acreditava ser puramente nordestina e se revelou tão
eslava em sua voz e em seu violino que, Kassin, que produziu
o disco comigo (ou para mim), resolveu adicionar palmas e
um fole (que às vezes toca uma terça menor em
choque com a terça maior de um acorde recorrente).
Sem Kassin, aliás, esse disco não seria o que
é. Kassin, que conheci através de Moreno
que, por sua vez, o conheceu por intermédio de Pedro
Sá é um talento imenso e muito peculiar.
Totalmente do mundo dos novos mini-estúdios com pro-tools,
informadíssimo, inspiradíssimo, ele tem tão
pouco medo do ridículo quanto Mautner e a mesma
capacidade de estar sempre roçando a paródia.
Tem também um suingue inacreditável. Seu baixo
bate no tempo de modo tão gostoso e moderno (sem fazer
sotaque de baixista suingado de jazz-fusion) que parece que
não tem ninguém tocando, que é o próprio
tempo dizendo-se, sem um ego chato para atrapalhar. Pedro
Sá, Davi, Domênico, Moreno e outros músicos
convidados entravam e saíam da sala minúscula
do estúdio.
Nelson
Jacobina estava sempre lá: o grande Nelson, o Carneirinho,
principal parceiro de Jorge (não só o mais freqüente
como também co-autor das obras-primas). Fabiano, pilotando,
só transmitia tranqüilidade, doçura e segurança.
Tarta, quase que só doçura. Havia também
uma foto da Luana Piovani pregada na porta, do lado de dentro
do estúdio. Dizíamos que ela era a nossa padroeira:
ela foi a madrinha da bateria do nosso samba. Um dia eu a
levei lá. Em carne e osso. Parecia uma visão
irreal. Ela ficou até o fim da sessão. Todos
os rapazes ficaram extasiados. Ninguém se recuperou
ainda direito. Quem canta seus males espanta. Este disco é
para a gente atravessar esses tempos de homens-bomba, especulação
globalizada, dengue e insegurança. Com a ajuda da lua
de Jorge e das Luanas chegaremos vivos a um
outro ambiente.
Caetano Veloso
Faixa
a faixa:
Por
Jorge Mautner
Todo
Errado
rock-balada-sertanejo-mariachi, com violinos chorando mágoas
de amor. Retrato da paixão obssessivo-compulsiva e
da maior dor humana que é a da rejeição.
Como diz Thomas Mann: "O amor está em quem
ama e não no ser amado!!!!" E como dizia meu pai,
Paul Mautner: "Não importa o que você fizer,
estará sempre errado."
Feitiço
esta é, para mim, a canção que define
poética e ideologicamente este disco. Samba-exaltação
máxima, feito das mil contradições harmonizadas
pelo feitiço maior chamado Brasil!!!! Aquele abraço.
Samba que exalta a aquarela de cores de todos os batuques
e é um samba-resposta na tradição tão
criativa de polêmicas entre sambistas, em forma de provocação
amorosa ao imortal samba de Noel Rosa e Vadico "Feitiço
da Vila". Ao invés de ter feitiço decente
que prende a gente, nosso samba tem feitiço indecente
que solta a gente. É a alma do Tropicalismo que já
foi criticado até pelo uso de guitarras elétricas
na MPB. Mas aqui tudo sucumbe ao abraço da enlaçante
amizade, novamente e sempre, aquele abraço. Zumbi come
Zabé, Zabé come Zumbi, isto nos leva para a
segunda abolição da escravidão simultaneamente
com a inclusão de todas as periferias, do Mangue bit
a Vigário Geral, do Fundo de Quintal ao Candeal, Candeal
que é também uma obra social e cultural para
incluir os excluídos, dando-lhes instrução
e profissão em direção à cidadania
e dignidade criada por Carlinhos Brown, exemplo a ser seguido!!!!
É a confederação dos batuques!!!!
Manjar de Reis Lundu enlouquecido, futurismo
transfigurado de trio elétrico, misturado com sons
de um rococó imperial, cheio de sacanagem sutil, nos
tempos clássicos chamado de malícia. Sempre
o amor!!!!
Tarado Noites do
Oriente se abatem fabricando a miragem de um harém
democrático onde o poeta tarado e reabilitado em sua
dignidade de tarado, reabilita em quase divina e erótica
missão as garotas excluídas, porque até
então eram consideradas como feias, ou como disse o
genial Vinicius de Moraes: "As feias que me perdoem,
mas beleza é fundamental." O tarado as reabilita
e as inclui na confederação da sensualidade
geral. Bolero mestiço, bossa nova amazônica,
onde as dunas de areia viram ondas musicais.
Maracatu Atômico
Hino do porta-estandarte do ser que é a cultura
brasileira eterna e do século XXI. Saúda-se
aqui tanto a ecologia assim como o futurismo, a energia eólica
e a energia atômica, a poesia bucólica e a força
da vida que se irradia da floresta amazônica. E é
fundamental a negritude, porque é no quadro-negro que
é todo negro que eu escrevo seu nome só pra
demonstrar o meu apego!!!!!
Namorado Rocknroll
antropofágico rollingstoniano tropical, onde se intercalam,
como em um quadro surrealista, duas paisagens, sendo a primeira,
uma alocução irônica e amorosa para Carlinhos
Brown, com a descrição de uma maravilhosa e
sedutora mulher sendo a segunda, um jardim chinês de
um paraíso pagão do império celeste,
da cor azul da felicidade, onde domina o fatalismo que parece
brotar dos rochedos da paisagem panteísta e a sua brisa
do entardecer.
Urge Dracon hino de
auto-ironia e de auto-enaltecimento justificado. Ironização
dos totalitarismos e tiranias e ao mesmo espaço-tempo
profeticamente correto e sagrado com toques de tambor para
Oxalá!!!!
Urge Dracón
pode também sugerir a introdução de leis
draconianas, ou na alma de cada um ou concretamente na palavra
da lei escrita nos tribunais! Deixando de lado a ironia, é
de nossa parte uma homenagem aos Procuradores da República,
em sua heróica missão de purificar a República,
acima de qualquer pressão ou injunção
partidária, sem medo, como têm feito até
agora!!!!
Coisa Assassina
Balada-funk do bem, violino de puro réquiem. Recordação
da casa dos mortos, memórias das regiões tenebrosas.
Conselho sem caráter de repreensão ou proibição,
apenas maldição trágica, que, como Cassandra,
amaldiçoa a coisa assassina. Conselho amoroso em forma
de doçura trágica e, como todos os conselhos,
talvez inútil. Mas, mesmo assim, fundamental, mesmo
que inútil.
Homem-bomba samba
arquetipal de ritual de exorcismo contra o mal e propiciatório
do bem. Descrição musical poética de
duas opções, de duas dimensões, a dimensão
do terror e a dimensão da democracia abençoada
pelo amor, pelo Cristo Redentor e pelo bom humor que é
o fator principal que introduz o relativismo que destrói
todos os fundamentalismos das intolerâncias absolutistas
e terroristas. É a hora undécima da conciliação
e da reconciliação.
Lágrimas Negras
Novamente a negritude e a paisagem. O negro são azuis,
blues, concentrados. Poços de petróleo, escuridões
da noite, o astronauta da saudade, que usa uma estrela como
brinco na orelha.
Eu Sou Doidão
Marchinha circense, homenagem aos palhaços de todos
os tempos e um dos arquétipos de um dos vários
cérebros que fingem ser um só do compositor.
Homenagem ao Idiota de Dostoievski e lembrança eterna
do Sermão da Montanha, que Jesus de Nazaré proferiu,
vestido em manto púrpura dos reis e que começa
dizendo: "Bem-aventurados os pobres de espírito,
porque deles será o reino dos Céus!!!!"
Morre-se Assim Brincadeiras
com o derradeiro fim. Humor para consolo inevitável.
Citação de frase do Barão de Itararé,
inscrição do cemitério de Évora,
e verso de Noel Rosa e Lamartine Babo, extraído da
marchinha intitulada A.b. Surdo. Aula de português em
forma de apresentação das conjunções
adversativas, em forma de versos, desta marcha fúnebre
funk esfuziante!!!!
Graça Divina
Se o Feitiço, a meu entender, é o manifesto
poético-ideológico deste disco, a Graça
Divina é o seu hino para o Senhor Deus invisível,
da livre opção a cada segundo que faz existir
o perdão permanente, o amor infinito, e a ressurreição
a cada instante, mesmo para os ateus. Aquele que sempre inclui
os excluídos e que, através de seu filho, Jesus
de Nazaré disse também:" Tive sede,
tive fome, fiquei nu, fui doente, era estrangeiro!!!"
E notem que é um negro anjo alado, atendendo aos justificadíssimos
apelos daquele formidável bolero que pergunta porque
o pintor de paredes que pinta anjos, não pinta anjos
negros, angelitos negros, nas paredes das igrejas???? Fado-oração
do Brasil Portugal Universal do Quinto Império de D.
Sebastião perdido nas areias escaldantes de Alcacer-Kibir!!!!
Cajuína
O coração explode e implode. Poesia cristalina
na paisagem do Piauí, que se torna o universo da emoção,
com nó na garganta, eu canto rindo e chorando e assim
também sai a voz do violino. O enorme pandeiro batucado
por Moreno Veloso e o tambor do coração. Xote
eslavo do riso entre lágrimas de Gogol e Dostoievski,
de Torquato Neto a Mario Faustino.
Voa, Voa, Perereca Marcha-rancho nostálgica
e erótico-buliçosa de fábula infantil,
de um Brasil antigo e eterno.
Hino do Carnaval Brasileiro Síntese
geral, manifesto total, saudação ecumênica-democrática,
ampla geral e irrestrita das tolerâncias, inclusões,
absorções, sincretizações, mistura
tropical sagrada e consagrada. De todas as influências,
maiorias e minorias, seguindo o grito de Gilberto Freyre:
"Mestiço é que é bom!!!!"
Jorge Mautner